terça-feira, 14 de junho de 2011

Memórias de minha alfabetização


Não estou escrevendo no blog porque meu computador foi para o conserto. Mas, pra não ficar tanto tempo sem  coisa nova, postei esse texto antiguissimo. Ele foi escrito em 2007 (uma atividade da graduação) e tinha o intuito de vizualizarmos as diferenças entre o nosso processo de alfabetização e os "modelos" atuais. Nem era pra fazer textinho não... Mas eu sempre fui assim: as pessoas me pedem uma coisa de um jeito, mas eu acabo fazendo do jeito que acho mais legal. Às vezes dá certo. Tem gente que chama isso de teimosia, eu chamo de autonomia. :P

Memórias de minha alfabetização

Ao falar em alfabetização me vem logo à boca um gosto enorme de saudade, pois apesar da pouca idade lembro-me com clareza de muitos momentos. Dos meus erros e acertos, da minha turma, das minhas professoras e, principalmente, da cobrança incansável de minha mãe.
Quando pequena eu tinha exatamente dois sonhos: O de engordar e o de aprender a ler. Escrever? Não, escrever não me interessava tanto, pois as historinhas da Turma da Mônica já estavam escritas, o que eu queria mesmo era poder abri-las a qualquer momento sem ter de esperar que alguém pudesse lê-las para mim. Minha irmã até que gostava, mesmo com a minha exigência de que as vozes deveriam ser diferenciadas. O “r” que o Cebolinha não conseguia pronunciar, a voz de brava da Mônica, o sotaque caipira do Chico Bento e, principalmente, a voz de comilona da Magali. “Mas eu não sei como fazer uma voz de comilona, Mariana”, reclamava a minha irmã; de fato, ela nunca acertou a voz, pelo menos não do jeito que eu imaginava. Amava todas as historinhas, a única coisa que me indignava era que os personagens não cresciam nunca, todos os aniversários eram de seis anos, eles não passavam dessa idade. Eu não aceitava que o Maurício de Souza não os deixassem crescer, pois na minha cabeça de criança, não existia nada melhor na vida do que crescer.
Eu adorava ir à aula, brincar no parquinho, cantar a música “Meu lanchinho” antes do recreio e dizer bem alto, de pé e em coro: “Boa tarde! Seja bem vindo a nossa sala, sala de tia Edileuza”, quando alguém entrava em nossa sala. Mas o melhor mesmo eram os ditados. Ah, Eu amava os ditados, e amava um Arthur também. Ele era loiro, tinha olhos verdes e me dava chocolates de vez em quando. Eu insistia em perguntar o porquê do nome dele ter um “H” no meio. “Foi mainha que quis assim!”, ele me respondia gritando; às vezes, ele tinha uns acessos de raiva, ainda bem que não nos casamos.
Nunca tive muitas dificuldades na escola quando pequena, mas ainda hoje, se eu fechar os olhos e parar para lembrar, ouço minha mãe repetindo: “antes de P e B se usa M!” ou “chame a palavra como se ela fosse alguém, e aí você vai descobrir onde deve colocar o acento”.  Aprender a somar, dividir e repetir a tabuada até decorá-la sempre me deixava cansada, já os ditados, cópias e caligrafias, eu fazia por prazer, sem que ninguém mandasse.
Na minha sala tinham muitos joguinhos, e o que eu mais gostava era o de juntar as figuras aos seus respectivos nomes. E como existia um tempo determinado para cada atividade, fiquei me segurando para não ir ao banheiro, e logo quando estava juntando a palavra “coração” ao desenho, meu xixi saiu escorrendo pelo rejunte do piso, e já era de se esperar as infinitas risadas de umas vinte crianças. A professora, sempre calma, falou aquelas coisas de sempre: “calma gente, não tem necessidade de rir, essas coisas acontecem”. Breno foi o que mais riu, até no dia seguinte. Mas o pior de tudo foi que dançamos juntos no São João, porque eu era a menorzinha e ele era o menorzinho. Sim, infelizmente os pares eram dividimos por tamanho.
Tinha uma coisa que me deixava irritada, eu nunca acertava escrever a palavra “shopping”, para mim, a escrita dela não fazia o menor sentido. Depois de muita frustração, quando finalmente aprendi, foi que minha irmã me disse que a palavra era em inglês e que por isso ela não fazia tanto sentido para mim, pois lá eles falavam e escreviam de um jeito diferente do nosso. Nossa, mas que confusão que eu fiz na minha cabeça, como que eu iria conversar com o meu cachorro em português se ele era um Cocker Spaniel Inglês? Finalmente meu pai me explicou que a língua dos animais era diferente, era universal. Fiquei mais tranqüila.
Por falar no meu pai, me vieram à lembrança as brincadeiras de adedonha. Ele dizia que eu era “café-com-leite”. Eu não gostava muito do termo, mas ele me convenceu de que era melhor, porque o “café-com-leite” tinha direitos únicos, só ele poderia escrever qualquer palavra em qualquer lacuna, desde que fosse com a letra determinada. Sendo assim, se me pedissem um carro com a letra “B” e não me viesse nenhum a cabeça – como até hoje não vem – eu poderia escrever a palavra “batata” que eu ganharia pontos do mesmo jeito. Ser “café-com-leite” era o sonho de qualquer criança que não gostasse de perder.
Mas eu gostava mesmo era do fim do bimestre, quando recebíamos uma pastinha com todas as nossas atividades agregadas a um “parabéns!”, “excelente!”, ”muito bom!”, essas atividades representavam todo nosso desempenho e divertimento; e eu fazia questão de mostrá-las a qualquer pessoa que viesse à minha casa, de uma amiga de minha mãe até o motoqueiro que viesse deixar revistas. Hoje, percebo que elas não tinham qualquer interesse em minha alfabetização, mas como nenhuma delas nunca me disse nada, continuava mostrando e me amostrando.
Ao final de tudo, percebo que foi uma alfabetização tranqüila e divertida; de uma criança que odiava os números, mas que sempre amou as letras.

Mari Lima 

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