quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ser professora

Como a maioria já sabe, sou professora. Não professora do Ensino médio, não professora de cursinho pré-vestibular, não professora da Universidade; sou professora de criança.

Professores de criança no Brasil, em geral, sofrem preconceito ou são dignos de pena. Isso porque as pessoas têm o péssimo hábito de escolherem sua profissão pelo quanto de dinheiro podem vir a ganhar com ela.

Posso contar um segredo?

Não é a profissão que ganha dinheiro, é você quem põe a roda da fortuna pra rodar.
Aliás, já que entramos em um assunto que eu adoro, o dinheiro, que tal falar sobre o quanto você ganha?

Se você chegar à sua casa dizendo que vai fazer vestibular para pedagogia, no mínimo, você apanha de cinto. Mentira minha? Teste.

Muitos profissionais só possuem o status. A gente sacode uma árvore e caem 15.000 advogados dela. Quantos desses são bem sucedidos? Quantos desses conseguem pagar pela roupa bonita que usam no escritório?

As pessoas falam que professores de criança passam fome. Sinto lhe dizer, mas tem mais advogados desempregados e ganhando miséria na exploração de um escritório do que professores.

Enfatizo os advogados, apenas, por ser a segunda profissão mais valorizada no Brasil, perdendo apenas para a medicina. Mas existem tantas outras...

Nutricionistas, farmacêuticos, fisioterapeutas usam branco. Ponto final. Eles ganham tão mal pelo que fazem quanto qualquer professor de criança. A diferença? Eles usam branco. Arquitetos passam noites em claro desenvolvendo projetos que também são vendidos por uma miséria. Algumas poucas profissões rendem um dinheiro considerável a curto prazo. Entretanto, você pode ser o que quiser: menos professor!

Quando falo do preconceito da profissão, sei que ele não é todo externo. Sim, os próprios profissionais da educação se auto-discriminam. Uma colega de profissão já me perguntou:

- Mariana, o que as suas irmãs fazem?

- Minha irmã mais velha é bacharel em ciências da computação, mas não exerce, ela é funcionária pública. E a minha irmã do meio é bióloga e está fazendo mestrado na USP. Alguma coisa com o efeito de antidepressivos em ratos.

- Sério? E o que deu de errado com você?

Minha vontade era de dar um soco na cara dela. Mas apenas disse: “é por profissionais como você que a sociedade desvaloriza a profissão de professor”.

Muitos dos profissionais da educação estão nessa área por falta de opção. Porque era mais fácil passar numa federal ou porque era mais barato pagar numa particular. Desses profissionais, sinceramente, eu tenho que sentir pena. Pois eles contaminam e baixam o nível da educação brasileira.

Ser professor de criança não é ser babá, é mediar a construção do conhecimento do seu filho. É um trabalho de imensurável responsabilidade. Valorizem-nos, caso contrário, podemos transformar o seu filho no próximo Bin Laden da humanidade. Afinal de contas, também trabalhamos com a vida.

E posso contar outro segredo?

Ser igual aos demais (em qualquer profissão que seja) e até o melhor, lhe renderá, no máximo, uma promoção e uma miséria a mais no salário. Mas ser diferente dos demais, lhe garantirá o mundo.

Por favor, não sintam pena de mim, pois da próxima vez, não espere minha paciência. Espere um soco na cara. 

Ps1: Não apanhei de cinto quando decidi ser professora. Pelo contrário, sempre fui estimulada a ser o que eu tivesse vontade de ser. E, ainda assim, ganhar o mundo.

Ps2: Se você é burro (todo mundo sabe se é ou não), não se iluda pensando que vai passar num concurso público ou enriquecer só porque terminou um curso de bom status. Se toque e vá revender Avon ou investir nos jogos da mega-sena. É o melhor que você pode fazer com todo esse potencial.

Ps3: Inteligência não tem nada a ver com estudo, mas com as experiências que a vida nos proporciona ou que nós mesmos buscamos proporcionar. Uma pessoa, com poucas oportunidades, pode ser alguém extremamente inteligente e ganhar o mundo. Chamo de burros aqueles que se vangloriam do curso que fizeram, mas nada construíram, e, ainda assim, menosprezam aqueles que, por exemplo, escolheram ser professor.

Mari Lima

2 comentários:

  1. Ótimo texto. Também sou professora de crianças.

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  2. Minha irmã me mata de orgulho. Adorei!

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